🔎 Em busca de pistas: Quinta da Fonte Boa

O que resta da Coudelaria Nacional | Circulam na Internet numerosas histórias sobre a Quinta da Fonte Boa e a sua importância para a arte equestre portuguesa. Uma investigação entre fontes históricas, relatos transmitidos e questões ainda em aberto.

🔎 EM BUSCA DE PISTAS

Agnes

8/1/20265 min ler

Há muito que os antigos estábulos da Quinta da Fonte Boa deixaram de albergar Lusitanos. Ficou uma velha carroça de feno. Nas paredes ainda estão penduradas imagens da Escola Portuguesa de Arte Equestre e de Queluz. Algumas referências à falcoaria recordam igualmente a época em que ali esteve instalada a Coudelaria Nacional.

A quinta situa-se no Vale de Santarém, um pouco fora da cidade de Santarém. Atualmente pertence ao Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, o INIAV. Ali continuam a ser criados animais, cultivados alimentos para animais e desenvolvidos projetos de investigação na área da produção animal. Durante a minha visita, vejo cabras nos pastos, e um funcionário fala-me de bovinos nas instalações. Os antigos estábulos dos cavalos, o picadeiro coberto e a arena exterior, porém, não estão a ser utilizados.

Da Coudelaria do Sul à Coudelaria Nacional

A história da criação estatal de cavalos em Fonte Boa começou em 1887. Nesse ano foram criadas a Coudelaria Nacional do Norte e a Coudelaria Nacional do Sul. Esta última ficou instalada na Quinta da Fonte Boa, o lugar de paredes caiadas de amarelo que visitei em 2024 durante a investigação para o meu livro Nos Trilhos do Lusitano. Em 1891, a Coudelaria Nacional do Norte foi extinta por razões económicas. O seu efetivo equino, já transferido para Fonte Boa, foi integrado na Coudelaria Nacional do Sul, que passou então a chamar-se apenas Coudelaria Nacional.

Em 1913, a Estação Zootécnica Nacional também foi transferida para Fonte Boa. Tinha sido criada inicialmente em Belém, em 1901, e dedicava-se à investigação, criação e melhoramento de animais de produção agrícola. Em Fonte Boa, trabalhava com bovinos, ovinos, caprinos, suínos e equinos. Entre as suas funções encontravam-se ainda a análise de alimentos para animais e a manutenção dos registos genealógicos. Em determinadas épocas, a instituição empregou várias centenas de pessoas. Esta história é apresentada detalhadamente numa publicação do atual INIAV (FONTE).

A Coudelaria Nacional e a Estação Zootécnica Nacional – a estação estatal de investigação zootécnica – coexistiram durante muitas décadas no mesmo espaço. Ainda em fevereiro de 2007, o Serviço Nacional Coudélico anunciou um leilão de 30 cavalos da Coudelaria Nacional e da Coudelaria de Alter. Os animais podiam ser vistos em Fonte Boa, e o leilão realizou-se a 3 de março no picadeiro da quinta (FONTE).

Poucos dias antes, já tinha sido decidida a extinção do Serviço Nacional Coudélico. As suas competências e parte do seu património foram transferidas para a recém-criada Fundação Alter Real. A fundação tinha sede na Coudelaria de Alter, em Alter do Chão. Entre as suas funções encontravam-se a gestão da Coudelaria Nacional e da Coudelaria de Alter, do Laboratório de Genética Molecular e, inicialmente, também da Escola Portuguesa de Arte Equestre (FONTE).

Os documentos oficiais acessíveis comprovam, portanto, que ainda havia cavalos em Fonte Boa no início de 2007 e que a reorganização institucional começou nesse ano. Não permitem, porém, determinar com clareza quando todo o efetivo restante foi transferido para Alter do Chão. A atual Coudelaria de Alter refere que o pequeno núcleo de criação da Coudelaria Nacional se encontra em Alter do Chão desde a reorganização que levou à extinção da Fundação Alter Real. Essa reorganização ocorreu em 2013 (FONTE).

Quem gere o Livro Genealógico do Lusitano?

A Coudelaria Nacional é uma coudelaria do Estado, com ferro próprio e uma linhagem própria. Não gere, porém, o Livro Genealógico oficial do cavalo Puro Sangue Lusitano.

Essa função pertence à Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano, a APSL. O regulamento em vigor estabelece expressamente que a gestão do Livro Genealógico está confiada à APSL. A associação procede às inscrições, mantém os dados de ascendência e organiza as avaliações para a admissão dos animais como reprodutores. Também pode emitir os documentos de identificação dos Lusitanos.

Um cavalo só pode ser oficialmente designado como Lusitano se estiver inscrito neste Livro Genealógico. O regulamento reconhece igualmente a APSL como entidade responsável pela coordenação mundial do Livro Genealógico.

Um espaço com várias histórias

A Fundação Alter Real foi novamente extinta em 2013. Desde então, as responsabilidades do Estado pela preservação das linhas genéticas da Coudelaria Nacional e de Alter Real pertencem à Companhia das Lezírias (FONTE).

Desde setembro de 2012, a Escola Portuguesa de Arte Equestre é gerida pela Parques de Sintra – Monte da Lua. Os seus estábulos e um campo de treino encontram-se atualmente no Páteo da Nora, na Calçada da Ajuda, em Belém. Em frente situa-se o Picadeiro Henrique Calado, onde os visitantes podem assistir ao trabalho da manhã. Também se realizam galas com regularidade. As datas das galas e das festas dedicadas ao Lusitano em Portugal encontram-se AQUI, no meu calendário de eventos do Lusitano.

Os cavalos estão alojados no Páteo da Nora, em Belém. Segundo o site da Parques de Sintra, a escola continua aparentemente a manter parte dos seus cavalos nos estábulos construídos em 1996 nos jardins do Palácio Nacional de Queluz. Toda a escola esteve instalada em Queluz até 2015, e as apresentações realizavam-se regularmente nos jardins do palácio.

As imagens existentes nos estábulos de Fonte Boa mostram os cavaleiros da escola nos jardins de Queluz. Recordam a antiga ligação institucional (FONTE).

A Quinta da Fonte Boa não é um local abandonado propriamente dito. Ali continuam a desenvolver-se atividades agrícolas e projetos de investigação. Durante a minha visita, apenas estão vazios os edifícios que mais me interessam. Nos estábulos ainda se percebe que foram utilizados durante muitas décadas para albergar cavalos. Depois da saída da Coudelaria Nacional, estas instalações também foram repetidamente alugadas a cavaleiros.

A velha carroça de feno, as imagens nas paredes, uma arena exterior coberta e o picadeiro abandonado são os últimos vestígios visíveis da Coudelaria Nacional na sua antiga localização. Quando volto a sair dos estábulos, a carroça continua no seu canto. Ainda preciso de descobrir se, além dela e dos edifícios vazios, permaneceram em Fonte Boa partes do arquivo histórico ou antigos registos genealógicos da Coudelaria Nacional. Desde 2013, a responsabilidade pela Biblioteca da Coudelaria Nacional e pelo respetivo fundo documental histórico pertence à autoridade veterinária portuguesa, a DGAV.

Sobre o livro:
Em Nas Pegadas do Lusitano, conto com mais pormenor a história de Dom Duarte, das formas históricas de montar e das figuras que marcaram a arte equestre portuguesa. Conheça o livro aqui.